Aprender com a experiência
O Outono pede aconchego. Aproveitei as claras que estavam no frigorífico e as maçãs enrugadas da fruteira. Reli a receita antes de avançar para garantir que não havia esquecimentos, nem distrações.
Bati a massa e verti-a para a forma. Levei ao forno e baixei a temperatura de 180º para 160º. Sim, a receita dizia para pré-aquecer o forno a 180º e manter, mas não segui à risca a conhecida e intemporal regra.
Porquê?
Porque aprendi a ler nas entrelinhas, onde a técnica não sabe tudo. Um bolo implica prática e teoria. O passo a passo mostra-nos, a todos nós, o caminho. Mas compete a cada criador explorar o percurso.
Descobri que no meu forno 180º correspondem a praticamente 200º. E essa aprendizagem mudou a minha mentalidade. Temperaturas e tempos indicados passaram a ser referências que tenho de adaptar.
Na cozinha e na escrita não há dogmas. Há procedimentos, fórmulas e regras que devemos conhecer, treinar e dominar, sem alimentar ilusões. É que todo esse saber não vai evitar, nem resolver, todos os acidentes de percurso.
Ter uma boa técnica é ópimo. Só que a nossa capacidade de produzir conteúdo com qualidade perde-se, quando não sabemos criar a partir das nossas experiências e dos nossos sentidos.
Não posso limitar-me a seguir as receitas e as instruções dos outros. Tenho de aprender por mim e confiar no meu instinto. Sei melhor do que ninguém o que funciona comigo e para mim.