Asas ou raízes?

Dar asas ou dar raízes. Inovar ou tradição.

O eterno problema (e dilema) de quem cria. Respeitar e manter a tradição. Ou. Inovar e (re)criar a nossa versão.

Para quem, como eu, vê o prato e a folha em branco como uma oportunidade para explorar os ingredientes, a resposta não é simples. Sinto-me dividida. A necessidade de preservar a memória versus a vontade de descobrir e experimentar.

Na cozinha, sinto o peso das receitas de família, passadas de geração em geração. Os bilharacos de abóbora da tia. O gelado de morango da mãe. As papas de farinha de trigo da avó. São perfeitas para mim, tal como estão. Mas…

Enquanto as saboreio, a minha criatividade fervilha. Um pouco menos de farinha e mais abóbora. Pedaços de bolacha envolvidos no creme de nata e morango. Uma pitada de canela. Arrisco e reescrevo as receitas.

Gosto do resultado e sirvo. Agora, nos encontros familiares, a tradição e a inovação reúnem-se à mesa. Saboreamos as doces memórias e provamos as novidades. Porque com um saudável equilíbrio, (quase) tudo se consegue conciliar.

Também na escrita, o desejado equilíbrio entre o ‘habitual’ e o ‘original’ é essencial. Se sei que funciona bem, posso e devo utilizar as técnicas e as regras conhecidas e testadas. Mas não posso ficar limitada a essas receitas. Tenho de as trabalhar à minha maneira.  

Dar asas à nossa imaginação não implica abdicar das nossas raízes. Tal como conservar as nossas raízes não implica abdicar da nossa liberdade criativa. Com peso, conta e medida, somos felizes. No prato, na folha e, sobretudo, na vida.

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