Rotina(s)
“Leio todos os dias e prefiro escrever à noite. Não gosto do silêncio, ponho auscultadores e ouço heavy metal. Gosto de ouvir a mesma canção 80 vezes seguidas, torna-se num loop e eu entro no loop e escrevo.”
A rotina da escritora Elif Shafak não podia ser mais diferente da minha: é o oposto. Eu preciso de silêncio para organizar as minhas palavras e construir as minhas frases.
Gosto de escrever de dia e sozinha, no meu canto. Sem música, sem notificações do telemóvel, sem ruído de fundo. Sem distrações. É por isso que não trabalho em cafés ou espaços públicos e, confesso, bem gostaria de o fazer.
Mas não funciona para mim. Já na faculdade, estudar em grupo ou fazer trabalhos rodeada de gente nunca era a minha primeira opção.
Trabalhei em redacções, escrevi em pavilhões e estádios barulhentos, com a contagem decrescente para o fecho da edição a marcar o ritmo. Fazia-o sem falhar, mas não era aquele o meu ambiente natural.
Durante algum tempo pensei que o defeito era meu. A experiência mostrou-me que afinal não era. Não havia nenhum defeito, apenas um processo criativo diferente.
Hoje sei que me consigo adaptar a diferentes condições de escrita, mas não é isso que eu quero. Porque conhecer a nossa forma de criar e trabalhar é essencial para a qualidade do que escrevemos.