As minhas sapatilhas vermelhas

Fazer uma cama com dobra de envelope. Gerir equipas e delegar tarefas. Escalfar ovos.

A minha passagem pelo mundo da hotelaria foi uma verdadeira escola. Aprendi imenso com os meus colegas e, acredito, também partilhei algumas coisas. O nosso dia-a-dia era tudo menos monótono.

Só que apesar da diversidade de personalidades, nacionalidades e tarefas, havia um traço comum. Todos vestíamos uma farda, para garantir uma uniformidade visual. Não era feia, mas era monótona e sem vida. Não me representava.

Sentia-me incomodada. A forma como nos vestimos é uma forma de expressão. As cores, os padrões, as peças de vestuário são escolhas pessoais que dão voz à nossa pessoa. Não podia quebrar a regra, mas também não podia “anular-me”.

O que fiz?

Vesti a minha farda todos os dias e calcei as minhas sapatilhas vermelhas todos os dias. No meio de tanto preto, cinza e algum branco, duas manchas avermelhadas sobressaíam.

Os clientes podiam não saber ou recordar o meu nome, mas sabiam identificar-me quando perguntavam por mim aos colegas. Ninguém me confundia. Aquele apontamento cheio de cor tornou-se uma espécie de marca pessoal.

No mundo da escrita, à primeira vista, podemos parecer todos iguais. Só que um olhar atento prova que não é bem assim e que há (grandes) diferenças.

Quando escrevo, calço as minhas sapatilhas vermelhas. As minhas palavras e técnicas podem ser iguais às dos meus colegas (não inventei a roda), mas é a forma como as utilizo que me diferencia.

Escrevo com clareza. Crio com autenticidade. Comunico com personalidade.

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Criatividade = Paciência