Saber observar
“– Tia, a menina está triste.
– Não está nada…
– Está, está.”
O alerta do meu sobrinho mais novo quase passou despercebido. Mas acabei por perguntar à menina em questão se estava bem. E ela confessou que de facto estava triste, porque tinha caído e magoado o joelho. Não era nada de grave, mas aos quatro anos tudo ganha proporções ‘gigantes’.
A capacidade de observação do mais pequeno surpreendeu-me. Com apenas três anos, o meu sobrinho percebeu que a amiga não estava bem através de um mero olhar. O espaço estava cheio de adultos e ninguém reparou naquela tristeza.
Na era da disputa pela atenção, a sensibilidade dos mais novos lembra-nos que, muitas vezes, os detalhes mais importantes ‘passam ao lado’ dos mais crescidos. Entre rotinas aceleradas e olhares distraídos, esquecemo-nos de que estar presente se revela nos gestos mais simples.
É incrível como a inocência de quem ainda está a crescer consegue ver aquilo que a pressa e a rotina escondem. Porque reparar no outro é ou devia ser, acima de tudo, um gesto natural. Um olhar atento, uma pergunta sincera, um abraço oferecido sem esperar nada em troca.
As crianças percebem o que nós, apressados, deixamos escapar. Talvez por isso sejam elas que nos ensinam a desacelerar e a perceber o que está para além do óbvio. O meu sobrinho é um excelente professor.