Super-poder
“– Tia, sabias que os olhos do Nietzsche mudam de cor de acordo com os seus sentimentos?
– Como?
– Quando ele está feliz, têm uma cor. Quando ele está chateado, têm outra.”
Ouvi estas palavras quando estava a aplicar um creme no pescoço do meu cão. E ele não estava nada satisfeito com isso.
Não foram os olhos do Nietzsche que mudaram de cor e sim as suas feições que se tornaram mais zangadas. O focinho ficou cheio de ruguinhas. O olhar de poucos amigos intimidava. O mau humor não enganava ninguém.
As alterações não passaram despercebidas ao meu sobrinho. Reparou que a expressão do patudo revelava o seu estado de espírito. E os olhos eram mesmo o espelho da sua má disposição. Em vez da habitual cor de mel, pareciam mais escuros.
A capacidade de observação do mais pequeno é incrível. A constante descoberta do mundo, quando se está a crescer, tem destas maravilhas. Tudo é novidade. Tudo chama e prende a atenção. É ver com olhos de ver, com tempo e vontade de explorar.
É um daqueles super-poderes que vamos perdendo ou desvalorizando, à medida que mudamos de idade. Estar com o meu sobrinho ‘obriga-me’ a (re)ver com mais cuidado.
É tão bom ser criança.